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A humanidade esteve diante das mais diversas
pestes e doenças, mas creio que nenhuma foi tão sutil
quanto a normose. Este foi o termo criado por Jean Yves Leloup para
definir, não uma nova moléstia física, mas um tipo
de comportamento moderno intensamente destrutivo e hostil.
Normose seria a doença que faz com que o indivíduo aceite
comportamentos nocivos ou aja por sobre um plano ilusório de
uma maneira normal. O sujeito se acostuma tanto com determinada situação
que nem pensa em questioná-la. Ela passa a fazer parte do cotidiano,
mesmo trazendo prejuízos significativos.
Normose é assistir a escândalos políticos como corrupção
e desvios de recursos de uma maneira normal. Embora reivindicações
por mudanças sejam constantes, ficamos só no discurso.
Ao invés de curar o mal pela raiz, somos tentados a simplesmente
desviar do problema. Passiva, a sociedade aguarda providências
das "autoridades" as quais, quem sabe, nunca chegarão.
A falta de ética dos ambiciosos e o comodismo generalizado inibe
credibilidade e bom senso, restringindo a iniciativa e o trabalho criador
necessário a uma sociedade próspera e equilibrada. E isto
não acontece somente no meio político-social.
A normose é um mal que avassala o mundo inteiro, penetrando também
em nossos lares, onde tanto somos influenciados pelas chamadas "propagandas
enganosas" da mídia, como tornamo-nos vítimas de
maus hábitos e modismos que denigrem cultura e valores sociais.
Num mundo repleto de superficialidades, tornou-se comum assimilar referências
vazias e sem sentido. Obsessão por consumo e manutenção
de "status" são algumas condutas sutilmente interiorizadas,
mesmo sem significado real para nosso próprio crescimento. Adquirimos
padrões duvidosos apenas porque são considerados normais.
A normose também está na sexualidade. A revolução
cultural, mesmo rompendo com antigos e rígidos padrões
de relacionamento, acabou por incentivar situações fúteis
e passageiras. Tentando resgatar liberdade e sensualidade, muita gente
acabou por trocar intimidade e espontaneidade por indiferença
e promiscuidade. Substituímos inconscientemente nossos próprios
valores, aderindo às transformações de uma maneira
inerte - normal.
Bem, sei que não é fácil exercitar autoconsciência
frente a tantos estímulos. Mas, com sabedoria e vontade de crescer
poderemos banir a normose, caminhando equilibradamente rumo a um futuro
próspero, onde o progresso seja não só o resultado
de transformações urgentes e transitórias, mas
sobretudo baseado em valores sólidos e conscientes.
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Publicado no "Estado de Minas",
11/04/98 - http://www.castellani.psc.br
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